A Maggie, o Butsudan e a ideia que virou a Kami Studio
Era um sábado de 2012. Eu e minha esposa tínhamos ido almoçar e passamos na frente de um pet shop só pra olhar. Tinha um cercadinho cheio de filhotes, de várias raças e portes. A gente nem estava pensando em ter um cachorro naquele momento.
Foi aí que eu vi ela. Preta e branca, meio medrosa, olhando fixo, como se estivesse enxergando direto pra dentro. Disseram que era uma pequinês. Ficamos apaixonados na hora, mas fomos embora sem ela.
À noite, não parei de pensar naquela cachorrinha. Às 21h30 falei pra minha esposa: "Precisamos buscar aquela cachorrinha, ela é nossa." E fomos.
A Maggie chegou tímida e assustada. Tinha passado dois meses numa UTI quando filhote e tinha dificuldade em confiar em gente. Aos poucos, foi se abrindo. No segundo dia, deu a barriguinha pra minha esposa fazer carinho pela primeira vez.
Com o tempo, descobrimos que ela era mais Japanese Chin do que pequinês. Companheira, alegre, sempre feliz em nos ver. Uma sombra atrás da gente, principalmente da minha esposa. Fez parte da nossa família por quase 14 anos, inclusive da infância inteira da nossa filha.
Em janeiro de 2026, a Maggie faleceu, depois de um mês difícil de convulsões. Não teve um dia, desde então, que a gente não falou dela em casa.
Como Japanese Chin é uma raça rara até no Japão, boa parte dos tutores dessa raça se encontra pela internet. Por isso, eu tinha (e tenho) seguidores do mundo todo, muitos do Japão, Coreia e Rússia, apaixonados pelo Chin. Foi assim que fui exposto, repetidas vezes, à forma como os japoneses vivem o luto.
Foi nessa época que conheci o Butsudan. Um altar doméstico japonês, um canto da casa onde se coloca a foto do pet, objetos de apego dele, comida que ele gostava, e um portal Torii (aquele vermelho, tradicional dos templos xintoístas).
Achei o conceito lindo. Comecei a pensar no meu próprio Butsudan pra quando a Maggie partisse, mesmo sendo difícil admitir que aquele momento estava chegando.
Quis dar um toque diferente à ideia. Criei um modelo 3D a partir de uma foto da Maggie, imprimi e pintei à mão. Coloquei ao lado da urna com as cinzas dela, um portal Torii, uma foto, uma miniatura de bronze que ganhamos do crematório, e dois guardiões Fu Dogs, protetores de templos no Oriente.
Na cultura japonesa, Kami são os espíritos e as forças da natureza. Ancestrais e entes queridos são frequentemente reverenciados como guardiões da família.
Foi daí que nasceu a ideia. Transformar essa experiência em algo que ajudasse outros tutores a fazerem o mesmo: honrar os pets que já se foram fisicamente, mas que nunca saem da memória de quem os amou.
Não é sobre luto. É sobre celebrar a vida que a gente teve com eles.
Se você está vivendo algo parecido com o que eu vivi com a Maggie, eu entendo. E se quiser, posso te ajudar a fazer a sua própria peça.